sexta-feira, outubro 20, 2006

No aquário

Parece que há sempre um candeeiro qualquer a dizer “não bebas mais”… porque o vinho está caro e o Senhor que está no céu precisa mais dele do que tu. Não bebas mais, pá… será que ainda não viste que o copo é que tem a sede ? O corpo é teu, este copo… - e eu que estou tão vazio !… Há sempre uma voz: “não bebas mais“… não vês que o chão é que é mesmo torto e não se regulariza pelo padrão da bebedeira ? Estás a reparar que há um espelho lá no fundo onde tudo se turva de vermelho, mas as pedras são mais macias - liquefeitas - as arestas são ondulantes como algas e toda a merda social adquire uma aura brumesca, longínqua e irrisória. Todo o pormenor sebento que guardas na gaveta da vida reduz-se das proporções crescentes, alarves e épicas que costuma ter e, no centro do copo, está o candeeiro a insinuar “sou eu que te ilumino” anda cá e bebe tudo até à última gota, porque lá fora está a mulher, a amante, o patrão, o colega, o credor, o vizinho, o polícia, o padre, o político, a cidade inteira e deus, à espera de sentenciar que não bebes mais e que as curvaturas do teu vinho é que deixaram este mundo tão torto... ou então que bebeste menos, muito menos do que devias.

quinta-feira, outubro 05, 2006

3 e 1/2- Conversa de surdos

A propósito de Bocage, essa fraca figura, volta e meia dou por mim a perguntar a um candeeiro:
Espelho meu, há mais alguém que aprecie as minhas escamas, ou no fundo... apenas eu???
Como é óbvio, de todas as vezes os candeeiros respondem:
"Olha lá pá: não bebes mais!"
Hã?
"Nem lã, nem escamas, nem cabelo. Sou um candeeiro e não um espelho, humpf!!!"
Que espelho tão mal humorado.

Mas afinal o que tem isto a ver com o Bocage?
Não faço a mais pequena ideia!
Acho que o espelho tinha razão: não bebo mais!!!

E tu, vai um copo?

terça-feira, setembro 19, 2006

3 - Conversa de surdos

Há dias encontrei o Bocage a beber café numa esplanada em Setúbal...
Ali na avenida Tody!
Tinha um cordel de sisal metido num ouvido e esforçava-se para o conseguir puxar do fundo da goela.
Oh Bocage, o que estás a fazer, pá?
"Ghgagoo gag gaagiigh ghooéga!"
Aaaah! Bem me parecia. E queres ajuda?
"Gaaguga gghii, schléép!"
Ok, não digas que não ofereci ajuda. Mas ouve lá; achas que consegues tirar daí a espinha com a cera do ouvido??
"Gaarr geeh gonghiigo"
Bebi o café dele e segui o meu caminho. Não sem antes deixar um gafanhoto e um palito para pagar o café e, dar uma palmada nas costas do Bocage.
Boa sorte pá!
"Obrigado!"

quinta-feira, setembro 07, 2006

II - Caixa de tesouros

Se eu abrisse a caixa de Pandora, concerteza que a ouviria arrotar...
Isso é algo que acontece frequentemente quando se vomita.
Principalmente quando se vomita cá para fora todas as pragas alguma vez criadas...
Quer dizer, no fim de uma bela "vomitadela" até sabe bem arrotar, não é?

E pelo que vejo, a bela caixa, até traz incluído um palito mensageiro.
A última vez que fumei um destes, fiquei siderado ao ver esfumarem-se no ar, lindos versos de amor...
A par dos restos de queijo e da sandes de torresmos do almoço de Zeus.

Este palito tem uma bela voz! Porque será que Pandora largou a caixa do seu almoço à minha porta? Será que se tornou vegetariana? Ás tantas lembrou-se de emagrecer para agradar ao escaravelho broche de Cleópatra!

De qualquer modo, acho que fico com a caixinha. Engulo uns gafanhotos, à sua saída da caixa e, quando estiver vazia guardo o pão e os pastéis de nata, lá dentro...

I - Caixa de tesouros

Pandora deixou este embrulho aqui, contendo toda uma infinitude de tralha... Vinha sem laçarote e trazia uma etiqueta a dizer “Para abrir em dias regulares”...

Estanquei e interroguei: o que será um dia regular ?

Prontamente saíu da caixa um mensageiro em forma de palito usado. Trazia espetado pela cabeça abaixo – leia-se pelo bico acima – mais outro papelito onde se lia “gosto de escrever e ainda mais de comer cerejas no final do arroto”.

Fiquei esclarecida, claro: um dia regular tem a ver com cerejas e, sobretudo, com vontade de dizer impropérios, impossibilidades técnicas e criatividades prácticas. Terá a ver com o falar só por falar – e sim, a Língua Portuguesa também está metida nisto... há cumplicidade evidente – terá a ver com estas alturas em que não há nada de novo mas o cérebro teima em continuar a mexer... por isso toca a desregular e a tocar qualquer instrumento que engula o silêncio.

Talvez haja algo para estes casos dentro do pacote... fiquei a olhar de esguelha, sobre o ombro do papel, para a tampa da caixa fechada...

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